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São Paulo

Pesquisa paulista desvenda mecanismo do mofo azul em frutas cítricas e abre caminho para controle sustentável

Estudo conduzido por Unicamp e USP revela como fungo neutraliza defesas de laranjas, limões e tangerinas, apontando alternativas aos fungicidas tradicionais.

Pesquisadores da Unicamp e USP estudam mecanismo do mofo azul em frutas cítricas, buscando alternativas aos fungicidas tradicionais. Foto: Agência SP

Raphael Nogueira Felix
31 de maio de 202615:30
Atualizado agora há pouco às 18:30

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP) revelaram, pela primeira vez, o arsenal químico utilizado pelo fungo Penicillium italicum, causador do mofo azul, para infectar frutas cítricas como laranjas, limões e tangerinas. O estudo, publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, foi eleito o melhor artigo científico de 2025 pela revista americana.

O Brasil, maior produtor mundial de laranja e líder na exportação de suco, enfrenta perdas significativas no pós-colheita devido a fungos. O mofo azul é o segundo mais problemático, atrás apenas do mofo verde (Penicillium digitatum), que responde por até 90% das perdas em regiões tropicais. Apesar disso, o mofo azul recebia menos atenção dos cientistas.

Os cientistas identificaram que o fungo se instala na casca da fruta por meio de microlesões e libera moléculas químicas capazes de neutralizar não apenas as defesas naturais da fruta, mas também os microrganismos benéficos (endofíticos) que vivem na superfície. Esse combate múltiplo permite que o patógeno se sobreponha e prospere.

“Compreender melhor as estratégias e o arsenal químico desses patógenos é fundamental para desenvolver formas de controle mais eficazes sem depender de agrotóxicos”, afirma Taícia Pacheco Fill, professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e autora principal do estudo.

Atualmente, o controle do mofo azul depende de fungicidas sintéticos como imazalil e tiabendazol, que apresentam resistência crescente e geram preocupações ambientais. A descoberta abre caminho para novas estratégias de combate ao fungo, uma das principais pragas da citricultura brasileira.

Os pesquisadores utilizaram técnicas de metabolômica avançada para mapear as substâncias químicas produzidas pelo patógeno durante a infecção. “Conseguimos identificar compostos essenciais para o desenvolvimento da infecção. Verificamos em laboratório que, sem essas substâncias, o fungo cresce muito pouco, o que abre espaço para novas estratégias de combate”, explica Fill.

A rápida disseminação do fungo nas caixas de frutas, conhecida como nesting, pode causar até 50% das perdas na China, terceiro maior produtor de laranja do mundo. O estudo também analisou diferentes dias de infecção, revelando que o fungo desmonta a parede celular da fruta com enzimas, enquanto esta reage produzindo compostos antifúngicos como naringenina e diosmina. O fungo contra-ataca com compostos como brevianamida F e desoxibrevianamida E.

Os cientistas destacam que identificar as moléculas produzidas pelo patógeno é o primeiro passo para desenvolver inibidores específicos, mais seguros ao meio ambiente e à saúde humana, com menor risco de resistência fúngica. O próximo passo da equipe é desenvolver inibidores dessas vias metabólicas, capazes de desarmar o patógeno sem afetar o fruto.

Fonte de referência: Agência SP — https://www.agenciasp.sp.gov.br/estudo-de-sp-premiado-descreve-estrategia-usada-pelo-mofo-azul-para-devastar-frutas-citricas/

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