Uma jovem de 29 anos, mãe de dois filhos, morreu em maio deste ano à espera de um medicamento que a Justiça havia determinado que a União fornecesse. Larissa Amorim, que enfrentava uma leucemia desde a infância, faleceu 59 dias depois de obter uma liminar favorável, sem nunca ter recebido o tratamento.
O caso, ocorrido em São Paulo, levou a Associação Brasileira de Câncer do Sangue (Abrale) a protocolar uma representação no Ministério Público Federal (MPF) e na Procuradoria-Geral da República. A entidade pede a apuração de falhas "estruturais e reiteradas" que impedem pacientes oncológicos de acessar terapias reconhecidas pelo próprio Estado.
Larissa foi diagnosticada com Leucemia Mieloide Crônica (LMC) aos seis anos de idade. Natural de Vitória da Conquista, na Bahia, ela veio para São Paulo ainda criança para fazer tratamento com apoio de entidades filantrópicas. A doença ficou controlada por mais de duas décadas com o uso de um inibidor.
Em julho do ano passado, porém, o quadro se agravou e evoluiu para uma crise blástica linfoide B. Os médicos indicaram a necessidade de um transplante de medula óssea, mas antes seria preciso combater as células doentes com imunoterapia. Foram prescritos os medicamentos blinatumomabe e ponatinibe.
Como ambos não estavam disponíveis na rede pública, a família ingressou com uma ação judicial. O primeiro pedido foi negado, mas em segunda instância a desembargadora Monica Nobre, do Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3), concedeu liminar em 13 de março determinando o fornecimento imediato.
"Ela estava com tanta esperança dessa medicação chegar. Quando saiu a decisão, ela me ligou chorando, emocionada", relatou o marido, Murillo Barbosa, em entrevista.
Enquanto a decisão não era cumprida, os médicos repetiram ciclos de quimioterapia para não deixar a paciente sem tratamento. Com a saúde debilitada, Larissa contraiu uma infecção e morreu em 14 de maio. "Para quem tem câncer, o tempo faz parte do tratamento. Não pode esperar", afirmou Murillo.
O Ministério da Saúde informou que adotou as providências para cumprir a decisão judicial, mas diante da indisponibilidade imediata do medicamento, solicitou autorização para depósito judicial, sem obter resposta. A pasta também destacou que o blinatumomabe foi incorporado ao SUS para indicações específicas de Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA), que não abrangeriam o caso de Larissa, embora a liminar apontasse que ela era portadora de LLA B.
A demora na entrega de medicamentos incorporados ao SUS é um problema recorrente. A gerente de Políticas Públicas da Abrale, Luana Lima, explica que, após a incorporação, há um prazo de até 180 dias para o remédio chegar ao paciente, mas a pactuação entre esferas de governo e a atualização de protocolos podem levar anos. O ponatinibe foi incorporado em janeiro de 2025 e o blinatumomabe em julho do mesmo ano.
O hematologista Rafael Gaiolla, da Unesp Botucatu, ressalta que esses tratamentos são caros devido à alta tecnologia envolvida, e o SUS precisa equilibrar o atendimento a diversas doenças com recursos limitados. "O que se trabalha é custo-efetividade", afirma.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/jovem-leucemia-morre-espera-remedio


