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Vinhedo

PF aponta omissão deliberada da Voepass em manutenção e burla à fiscalização

Relatório da Polícia Federal concluiu que a Voepass omitia registros de falhas técnicas para evitar a retenção de aeronaves em solo, priorizando a disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional.

Avião da VoePassFoto: Divulgação/VoePass
Raphael Nogueira Felix
7 de agosto de 202602:19
Atualizado agora há pouco às 05:19

A Polícia Federal divulgou o relatório final do inquérito sobre o acidente aéreo que resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo, no interior de São Paulo. O documento aponta que a companhia aérea Voepass adotava uma prática sistemática de omitir panes técnicas em suas aeronaves, com o objetivo de escapar da fiscalização da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e manter os aviões em operação.

Segundo a investigação, a falha que contribuiu para a queda do voo 2283 não foi um caso isolado, mas sim o resultado de uma cultura organizacional que priorizava a disponibilidade da frota em detrimento da segurança operacional. A empresa teria deixado de registrar problemas no sistema de degelo em diversos voos, mesmo quando os pilotos acionavam alertas de mau funcionamento.

O relatório, ao qual o Metrópoles teve acesso, destaca que a omissão de registros técnicos era uma prática institucionalizada, conhecida pelas esferas gerenciais da companhia. A estratégia consistia em evitar que as aeronaves ficassem retidas no solo para manutenção, o que poderia gerar prejuízos comerciais.

Uma das práticas mais comuns era a comunicação verbal de anomalias técnicas com a equipe de manutenção, sem o devido lançamento no Technical LogBook (TLB), o livro oficial de registros técnicos da aeronave. Dessa forma, os problemas não chegavam ao conhecimento da Anac, que poderia determinar a suspensão das operações.

Em depoimento à PF, um comandante afirmou que os aviões da Voepass eram frequentemente despachados com falhas em algum sistema de degelo, cabendo ao piloto, por decisão própria, escolher um nível de voo abaixo da faixa de formação de gelo. Essa conduta, segundo a perícia, teria sido determinante para a perda de controle da aeronave.

A investigação também revelou que, antes da queda, os pilotos receberam pelo menos cinco alertas de falhas operacionais, que indicavam a necessidade de abandonar a área de formação de gelo e manter a velocidade mínima de segurança. No entanto, os procedimentos não foram executados imediatamente, resultando no acidente.

Em março de 2023, a Anac já havia constatado irregularidades no sistema anti-ice de aeronaves da companhia, que operavam normalmente mesmo sem registros de manutenção no diário de bordo. Inspeções anteriores também apontavam a ausência de reportes de manutenção.

O delegado André Ribeiro, da PF de Campinas, afirmou que a investigação identificou uma cultura de omissão em todas as cadeias da Voepass. “Pessoas da companhia aérea assumiram o risco de expor a aeronave ao perigo”, declarou o delegado durante coletiva de imprensa.

O relatório conclui que a omissão deliberada de panes no TLB era a prática mais comum, com diversos tripulantes relatando que anomalias eram tratadas “de boca” com a manutenção, evitando que o problema entrasse no radar da Anac. Há registros de voos em que, mesmo com falhas no sistema de degelo, comandantes assinalaram “nothing to report” (nada a reportar).

O caso segue agora para análise das autoridades competentes, que deverão avaliar as responsabilidades criminais e administrativas dos envolvidos. A Voepass ainda não se manifestou oficialmente sobre o conteúdo do relatório.

Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/como-voepass-agia-para-burlar-fiscalizacao-segundo-relatorio-da-pf

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