Um novo estudo publicado na revista Science Advances acompanhou em tempo real como o vírus herpes simplex tipo 1 (HSV-1), causador da herpes labial, se dissemina por diferentes camadas da pele humana. A pesquisa, conduzida por cientistas do Centro Max Delbrück e do Centro Médico Universitário de Hamburgo-Eppendorf, na Alemanha, utilizou organoides de pele — estruturas tridimensionais cultivadas em laboratório que mimetizam o tecido real — para observar o comportamento do patógeno.
Os resultados indicam que a infecção não é uniforme. Os fibroblastos da derme, camada logo abaixo da superfície, acumulam grandes quantidades virais já nas primeiras etapas do contato. Em contrapartida, os queratinócitos basais da epiderme e algumas células dos folículos pilosos apresentaram níveis menores de infecção, mesmo quando próximos de células já infectadas.
De acordo com os pesquisadores, esse padrão sugere que certos tipos celulares podem ter uma resistência natural ao HSV-1. O vírus só alcançou os folículos pilosos e os neurônios sensoriais em estágios mais avançados do processo, o que reforça a ideia de uma progressão desigual pelo tecido.
A equipe também analisou a atividade genética de cada região da pele durante a infecção, usando uma técnica que preserva a localização espacial das células. Observou-se que diferentes linhagens celulares acionam respostas específicas: os fibroblastos aumentaram a atividade do gene IER3, já conhecido por reagir ao HSV-1, enquanto os queratinócitos basais elevaram a expressão do IRF3, um regulador das defesas antivirais.
Além disso, os cientistas identificaram a ativação coordenada de moléculas da família TNF, que participam da resposta imunológica. Para Emanuel Wyler, pesquisador do Centro Max Delbrück, o modelo tridimensional permitiu visualizar como as células vizinhas reagem ao contato viral, algo difícil de obter em culturas tradicionais.
A pele é formada por camadas distintas — epiderme, derme e folículos pilosos — e cada uma abriga tipos celulares predominantes. Os queratinócitos compõem a maior parte da epiderme, enquanto os fibroblastos são típicos da derme. Os folículos pilosos atravessam essas camadas e ficam próximos de fibras nervosas sensoriais, o que explica o interesse em entender como o vírus atinge essas estruturas.
Os achados podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias futuras contra a herpes labial, embora os autores ressaltem que se trata de um estudo experimental com organoides, não de um ensaio clínico em humanos. A compreensão das defesas naturais de certas células pode orientar pesquisas sobre prevenção e tratamento.
O HSV-1 é amplamente disseminado e provoca lesões recorrentes nos lábios. A nova pesquisa não altera recomendações médicas atuais, mas acrescenta uma camada de conhecimento sobre a interação entre o vírus e o tecido cutâneo, com potencial para inspirar abordagens terapêuticas no futuro.
Fonte de referência: Saúde – Metrópoles — https://metropoles.com/saude/virus-da-herpes-infecta-celulas-da-pele-em-ritmos-diferentes-mostra-estudo

