Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) desenvolveram um sensor biodegradável capaz de identificar a presença de pesticidas em plantas em apenas três minutos. O dispositivo, feito a partir de acetato de celulose – material de origem vegetal, atóxico e flexível –, pode ser acoplado diretamente a caules, folhas e cascas, permitindo o monitoramento contínuo da saúde das plantas.
De acordo com os pesquisadores, o sensor é produzido por serigrafia, utilizando uma tinta de carbono sobre um bioplástico transparente. Essa tecnologia permite medir não apenas agrotóxicos, mas também temperatura, umidade, desidratação, biomarcadores, doenças e níveis de nutrientes. O trabalho foi publicado em fevereiro na revista Biosensors and Bioelectronics: X.
Uma das principais vantagens do novo sensor é o baixo custo: cada unidade sai por aproximadamente US$ 0,077 (cerca de R$ 0,40). Além disso, por ser biodegradável, o dispositivo pode ser descartado sem causar danos ao meio ambiente. Após o uso, é possível queimar o sensor em condições controladas e reaproveitar a tinta de carbono para fabricar novos sensores.
O sensor duplo, que combina duas técnicas de análise diferentes, é capaz de detectar três classes de pesticidas simultaneamente: diquat, carbendazim e difenilamina. Para funcionar, basta adicionar uma gota d'água sobre a superfície da planta – nos sulcos das folhas ou no pedúnculo de frutas como tomate e maçã – e posicionar o sensor sobre ela. Os dados são transmitidos via Bluetooth para um celular, permitindo a leitura em tempo real.
Paulo Augusto Raymundo-Pereira, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC-USP) e coordenador da pesquisa, explica que a ideia surgiu durante um estágio no Centro de Sensores Vestíveis da Universidade da Califórnia, em San Diego. “Lá fora, o uso de sensores vestíveis é direcionado para humanos, para detectar substâncias no suor. Como o PIB brasileiro tem forte participação da agricultura, pensei em adaptar a tecnologia para as plantas”, conta.
Os testes foram realizados em maçãs e pimentões, simulando uma situação real: os alimentos foram borrifados com uma solução de pesticida e, após cinco horas, o sensor foi fixado na casca para a análise. Os resultados mostraram que a detecção é rápida e precisa, sem danificar o vegetal. A tecnologia também pode ser usada para monitorar a presença de agrotóxicos na saliva humana ou na água da torneira, ampliando suas possibilidades de aplicação.
O projeto contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio de bolsas e auxílios a pesquisadores como Nathalia Oeazu Gomes, Sergio Antônio Spínola Machado e o próprio Raymundo-Pereira. A equipe já havia criado, em 2022, uma luva com sensores nas pontas dos dedos para o mesmo fim, mas o novo sensor vestível é mais prático e totalmente biodegradável.
Para os agricultores, a novidade representa uma ferramenta acessível e eficiente para garantir a qualidade dos alimentos e a produtividade das lavouras. Com o monitoramento em tempo real, é possível identificar problemas precocemente e reduzir o uso excessivo de defensivos agrícolas, contribuindo para uma agricultura mais sustentável.
Fonte de referência: Agência SP — https://www.agenciasp.sp.gov.br/sensores-biodegradaveis-detecta-pesticidas/


