Pesquisadores que acompanham as obras da futura Estação 14-Bis Saracura, da Linha 6-Laranja do metrô, no bairro do Bixiga, região central de São Paulo, localizaram novos vestígios que podem lançar luz sobre a história da ocupação afro-brasileira na área. Entre os itens recuperados estão pequenos montes de anil e feixes de gravetos amarrados, artefatos que, segundo especialistas, remetem a práticas religiosas de origem africana.
Os objetos foram achados em junho deste ano, durante um trabalho de monitoramento arqueológico conduzido pela empresa A Lasca, contratada para acompanhar as escavações no canteiro. Eles estavam em um compartimento a aproximadamente 2,2 metros de profundidade, onde também foram identificados ossos de animais, um martelo e um objeto similar a um prego.
O local onde as obras ocorrem abrigou, por cerca de cinco décadas, a sede da escola de samba Vai-Vai, uma das mais tradicionais da cidade. Antes disso, a região era ocupada pelo Quilombo do Saracura, comunidade que existiu no século XIX e cujos vestígios já haviam sido detectados em 2022, quando as obras da estação foram interrompidas.
Uma consultora especializada em religiões afro-brasileiras acompanhou os trabalhos e identificou indícios de que o ambiente escavado poderia ter sido utilizado como espaço de culto. No candomblé, o anil é tradicionalmente empregado em rituais de purificação e proteção, enquanto os feixes de gravetos podem representar um “atori”, uma vara sagrada usada em cerimônias.
Segundo a concessionária Linha Uni, responsável pela obra, todos os materiais encontrados serão registrados, catalogados e recolhidos para integrar o acervo do sítio arqueológico. A empresa afirmou que segue as orientações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e que as atividades no trecho onde os objetos foram localizados foram temporariamente pausadas durante a verificação.
O Iphan confirmou que recebeu, em 28 de julho, o relatório de monitoramento arqueológico do Sítio Saracura/Vai-Vai, que está em análise pela equipe técnica. O órgão informou que somente se manifestará após concluir essa etapa.
Os novos achados reforçam a importância de preservar a memória do Quilombo Saracura e do antigo reduto do samba paulistano. Especialistas acreditam que as descobertas são relíquias do século XIX e que o sítio arqueológico se estende além das áreas inicialmente escavadas no canteiro de obras.
A estação 14-Bis Saracura, que integra o projeto da Linha 6-Laranja, enfrenta atrasos justamente por causa dos vestígios históricos encontrados na região. A demora tem gerado expectativa entre historiadores e moradores, que veem na escavação uma oportunidade de resgatar parte da história negra da cidade de São Paulo.
A linha, quando concluída, deve ligar a região central à zona norte da capital, mas o cronograma depende da conclusão dos estudos arqueológicos e da liberação dos órgãos de patrimônio. Enquanto isso, os trabalhos seguem em ritmo condicionado às determinações do Iphan.
A descoberta de um possível terreiro em plena área urbana de São Paulo é um marco para a arqueologia e para a valorização das religiões de matriz africana no país. O caso também reacende o debate sobre a necessidade de conciliar o desenvolvimento urbano com a preservação do patrimônio histórico e cultural.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/arqueologos-acham-indicios-de-terreiro-em-obras-de-estacao-do-metro

