Na região central de São Paulo, o acolhimento aos frequentadores da Cracolândia não depende apenas de ações do governo estadual ou da prefeitura. Há anos, organizações não governamentais e coletivos sem fins lucrativos atuam no local com propostas alternativas de tratamento, lazer e educação.
Uma das estratégias mais adotadas por esses grupos é a Redução de Danos, abordagem que chegou ao Brasil na década de 1980, inicialmente em Santos, no litoral paulista, durante a epidemia de HIV. A proposta busca minimizar os riscos e danos associados ao uso de substâncias, sem exigir abstinência imediata.
Com a dispersão do fluxo de usuários a partir de maio de 2025, essas organizações precisaram se adaptar. Coletivos como o «Teto, Trampo e Tratamento» (TTT) e o «Pagode na Lata» reorganizaram suas frentes e passaram a concentrar o trabalho em locais como os Centros de Atenção Psicossocial (Álcool e Drogas).
Apesar da adaptação, representantes dos grupos afirmam que o número de pessoas atendidas caiu significativamente. A mudança no cenário da Cracolândia, com a ocupação de novas áreas, dificultou o contato direto com os dependentes que antes se concentravam em poucas quadras.
Ambos os coletivos investem em arte e educação como principal ferramenta de vínculo com os usuários. O «Pagode na Lata», por exemplo, reúne dez integrantes, sendo seis ex-moradores ou frequentadores da região. As rodas de samba e as aulas de percussão funcionam como um ponto de apoio e resgate da autoestima.
No caso do TTT, a bateria se apresenta em espaços públicos, como a Praça General Osório, e também em unidades de saúde. A ideia é que a participação em atividades artísticas abra caminho para a geração de renda e para a reorganização da vida dos assistidos.
Segundo os organizadores, a política de trabalho é antiproibicionista: os usuários não precisam estar em abstinência total para receber atendimento. Essa abordagem busca reduzir preconceitos e ampliar o acesso a direitos básicos, como saúde e trabalho.
Especialistas em saúde pública apontam que iniciativas de redução de danos, quando combinadas com oferta de cultura e profissionalização, podem contribuir para a reinserção social. No entanto, ressaltam que o poder público segue tendo papel central na estruturação de políticas de longo prazo.
A atuação dos coletivos na Cracolândia, portanto, vai além do acolhimento imediato: cria oportunidades para que os usuários encontrem novos sentidos para a vida, por meio da música, do trabalho e da convivência comunitária. O desafio, agora, é manter essas iniciativas diante do novo cenário urbano e da redução no número de assistidos.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/cracolandia-como-a-arte-e-usada-por-coletivos-na-abordagem-a-usuarios

