A história eleitoral brasileira recente mostra que candidaturas fora dos dois principais polos políticos têm enormes dificuldades para se tornarem competitivas. Mais do que a falta de votos, especialistas apontam uma combinação de fatores históricos, partidários e estratégicos que impede a consolidação de nomes posicionados entre o petismo e o bolsonarismo.
Desde a redemocratização, as eleições presidenciais foram marcadas pela concentração de votos em dois grandes grupos. Primeiro, na disputa entre PT e PSDB. Mais recentemente, entre o PT e o bolsonarismo. Mesmo com uma parcela do eleitorado que afirma não se identificar nem com a esquerda nem com a direita, esse contingente raramente se transforma em uma candidatura capaz de chegar ao segundo turno.
Para o cientista político Paulo Ramirez, uma das razões está na própria formação dos partidos de centro no Brasil. «É uma tradição histórica brasileira que vem desde a época colonial», afirma. Segundo ele, as siglas de centro historicamente priorizaram a participação em governos e a negociação por espaços de poder, em vez da construção de projetos nacionais próprios.
Esse comportamento também dificulta a formação de uma candidatura presidencial competitiva. «Não adianta falar de terceira via faltando três, quatro meses para as eleições», diz Ramirez. Na avaliação do especialista, uma candidatura competitiva precisa ser construída ao longo de todo o ciclo eleitoral, sobretudo no período entre um pleito e outro.
«São candidaturas, do ponto de vista estratégico, do marketing, muito mal feitas», avalia Ramirez. «Afastam o que é moderado.» Neste ano, nomes como os ex-governadores Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) chegam a ser apresentados como alternativas à polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). No entanto, posições mais próximas da direita radical podem afastar justamente o eleitor moderado que poderia formar a base de uma terceira via.
A série Na Boca da Urna, do Metrópoles, aborda o tema em um vídeo publicado nesta semana. A análise integra um conjunto de reportagens especiais sobre as eleições presidenciais deste ano.
O primeiro turno das eleições será em 4 de outubro, e o segundo, em 25 de outubro. No pleito, eleitoras e eleitores votarão para presidente da República, governador, dois senadores, deputado federal e deputado estadual.
A dificuldade de romper a polarização não é exclusividade do Brasil. Em diversas democracias, partidos de centro enfrentam desafios para se destacar em um cenário de radicalização política. No caso brasileiro, a tradição de alianças pragmáticas e a falta de projetos nacionais de longo prazo são apontados como entraves estruturais.
Enquanto isso, a campanha eleitoral se intensifica, e os candidatos buscam consolidar suas bases. A terceira via, para se viabilizar, precisará superar não apenas a desconfiança do eleitorado, mas também a lógica partidária que historicamente favorece os grandes polos.
Para os especialistas, o cenário atual exige uma reflexão sobre o papel dos partidos de centro e sua capacidade de oferecer propostas claras e diferenciadas. Sem isso, a tendência é que a polarização continue dominando o debate político nacional.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/3a-via-nao-consegue-eleger-presidentes

