A Avenida Paulista sediou, em 26 de outubro, uma das maiores manifestações políticas das últimas décadas no Brasil, reunindo cerca de 2 milhões de pessoas em apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. O ato, que antecedeu o resultado eleitoral, é apontado por analistas como um dos fatores que contribuíram para a reeleição do petista, que obteve vantagem de 4,4 milhões de votos sobre Flávio Bolsonaro.
A mobilização popular, a articulação entre ruas e redes sociais e um pacto entre gerações foram destacados por especialistas como elementos centrais para a vitória de Lula. O resultado contrariou a tendência latino-americana de ascensão de governos de direita radical, como os de Javier Milei na Argentina, Abelardo de la Espriella na Colômbia, Keiko Fujimori no Peru e José Antonio Kast no Chile.
Segundo André Araújo, professor de Relações Internacionais da FESPSP, a guinada à direita na região envolve dois pontos principais: a busca por soluções rápidas para as desigualdades e a influência do trumpismo. «Há uma percepção generalizada de descontentamento com as condições de vida, especialmente em relação à economia e à segurança pública. Na medida em que os governos não entregam resultados no curto prazo, o eleitorado opta por outra linha político-ideológica a cada ciclo eleitoral», afirmou.
O professor ressaltou que o segundo mandato de Donald Trump nos Estados Unidos tem impacto direto sobre a política latino-americana, mas o Brasil seguiu caminho distinto. A manifestação na Paulista, segundo os analistas, funcionou como um contraponto à maré conservadora e ajudou a consolidar a candidatura de Lula junto a diferentes setores sociais.
A eleição brasileira foi marcada por forte polarização e por pesquisas que, em sua maioria, apontavam Flávio Bolsonaro à frente. A reviravolta nas urnas é atribuída, entre outros fatores, à capacidade de mobilização nas ruas e à integração dessa mobilização com as redes sociais, ampliando o alcance da campanha.
O pacto entre gerações também foi citado como diferencial da campanha de Lula, unindo desde estudantes universitários até eleitores mais velhos em torno de uma mesma pauta. A presença de bandeiras vermelhas, cartazes e gritos estudantis na Paulista simbolizou essa diversidade de apoio.
Para os especialistas, o resultado brasileiro interrompeu temporariamente a chamada «segunda onda rosa» — iniciada em 2018 com a eleição de Andrés Manuel López Obrador no México — e sua subsequente guinada à direita. A análise sugere que a combinação de mobilização de rua, articulação digital e aliança intergeracional pode ter sido decisiva para frear o avanço da extrema-direita no país.
O ato na Paulista ocorreu em um sábado e reuniu manifestantes de diferentes regiões do país. A dimensão da manifestação, comparada às «Diretas Já», foi um dos elementos que, segundo os analistas ouvidos, ajudou a impulsionar a candidatura de Lula na reta final da eleição.
A vitória de Lula em um cenário internacional desfavorável ao campo progressista reforça a tese de que a mobilização social e a articulação entre diferentes gerações e plataformas foram fundamentais para o resultado. Os especialistas, no entanto, evitam apontar um único fator como determinante, preferindo destacar a combinação de elementos que marcaram a campanha.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/como-a-mobilizacao-na-paulista-ajudou-lula-a-vencer-segundo-analistas

