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São Paulo

Ex-funcionária relata rotina de óbitos em UTI neonatal de hospital sob investigação em SP

Técnica de enfermagem que atuou por seis meses na unidade diz ter presenciado cerca de uma morte por dia; hospital contesta relato e Vigilância Sanitária apura 35 óbitos.

Hospital Salvalus, onde atende HapVida, na zona leste de São Paulo. Hospital é alvo de investigação após morte de bebêsFoto: Reprodução
Raphael Nogueira Felix
28 de outubro de 202602:41
Atualizado há 1 dia às 05:41

Uma ex-técnica em enfermagem que trabalhou por seis meses na UTI neonatal do Hospital Salvalus, na zona leste de São Paulo, afirmou à reportagem ter presenciado uma média de cinco a seis mortes de bebês por semana durante o período em que atuou na unidade, em 2023. A profissional, que pediu para não ser identificada, comparou a experiência com outras UTIs neonatais em que trabalhou e classificou a situação como fora do padrão.

«Eu vi morrer assim, muitos por semana. Então eu falo muito, um por dia, às vezes dois. Morria dentro da UTI ali. E para mim isso não é normal. Eu trabalhei em outras UTIs e não era dessa forma», declarou ela, que deixou o hospital posteriormente.

Segundo a ex-funcionária, a rotatividade de pacientes na unidade neonatal, que tem capacidade para 18 leitos, era elevada em razão do volume de óbitos. Ela também relatou problemas como sobrecarga de trabalho, infecções hospitalares, falta de insumos e dificuldades na assistência aos partos. O ambiente foi descrito por ela como «caótico» e «desumanizador».

A profissional afirmou que, em outras duas UTIs neonatais onde trabalhou, os óbitos ocorriam a cada um ou dois meses, intervalo bem diferente do observado no Salvalus. «Era bem diferente. Lá não, lá toda semana tinha uma quantidade gigantesca de óbitos e eu falava para todo mundo: ‘Gente, isso não é normal…’ E aí todo mundo falava: ‘É, realmente aqui morre muito bebê’», contou.

A reportagem procurou o Hospital Salvalus, que contestou as declarações. Em nota, a instituição afirmou que «as informações divulgadas não procedem e não encontram respaldo nos dados assistenciais apurados. O levantamento realizado para o período em questão apresenta um cenário distinto do relatado». O hospital também argumentou que comparações entre instituições baseadas apenas em números isolados, sem considerar porte, perfil assistencial e gravidade dos pacientes, não permitem conclusões consistentes.

A Polícia Civil instaurou inquérito no 8º Distrito Policial em 21 de outubro para apurar as mortes de bebês na unidade neonatal do Hospital Salvalus. O caso está sob investigação e, até o momento, não há conclusão sobre as causas dos óbitos.

Paralelamente, a Vigilância Sanitária de São Paulo realizou uma inspeção no hospital em 23 de outubro para avaliar 35 óbitos e os protocolos da unidade. O órgão não divulgou prazo para concluir a análise.

A ex-técnica também mencionou que a equipe médica, em sua avaliação, era composta por profissionais inexperientes, que enfrentavam dificuldades no manejo de infecções bacterianas. «Como os médicos eram muito inexperientes, quando aparecia algum tipo de bactéria, muitas vezes eles não sabiam o que fazer, eles não sabiam como tratar, não sabiam que medicação dar. Então eles iam testando», disse, referindo-se ao uso de antibióticos em rodízio, o que, segundo ela, aumentava a resistência das bactérias.

Procurada, a Secretaria Municipal de Saúde não se manifestou até a publicação desta reportagem. O Hospital Salvalus reiterou que seus registros assistenciais apontam um cenário diferente do relatado pela ex-funcionária e que qualquer avaliação exige análise individualizada dos casos, considerando seus respectivos contextos clínicos e indicadores assistenciais.

Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/nao-e-normal-ex-tecnica-expoe-hospital-investigado-por-mortes-de-bebe

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