Um grupo internacional de cientistas, incluindo pesquisadores brasileiros, publicou um artigo na revista Nature Medicine alertando para a necessidade de incluir a resistência a antifúngicos no próximo Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana da Organização Mundial da Saúde (OMS). O documento, que deve ser divulgado ainda em 2026, atualizará as diretrizes lançadas em 2015.
Segundo os autores, a resistência antifúngica está se expandindo entre patógenos humanos, comprometendo a eficácia das terapias de primeira linha e aumentando o número de mortes por infecções fúngicas graves. O estudo defende a criação de uma força-tarefa com especialistas em micologia, líderes de saúde pública, saúde animal, ciências ambientais e formuladores de políticas públicas para mitigar a emergência e disseminação de patógenos resistentes.
Entre os brasileiros que assinam o artigo está Arnaldo Lopes Colombo, infectologista e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele coordena o Instituto Paulista de Resistência aos Antimicrobianos (ARIES), um centro de pesquisa apoiado pela Fapesp. Colombo também preside a Sociedade Internacional para Micologia Humana e Animal (ISHAM) e coordena o Centro de Micologia Médica da América Latina.
Os outros coautores brasileiros são Amanda Ribeiro dos Santos, pós-doutoranda na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), e Flavio Queiroz-Telles, pesquisador da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Historicamente, a indústria farmacêutica e a pesquisa científica têm focado em bactérias multirresistentes, mas os pesquisadores chamam a atenção para o perigo das infecções fúngicas resistentes. Atualmente, há poucas opções terapêuticas para tratá-las. Durante a pandemia de COVID-19, por exemplo, infecções fúngicas aumentaram a mortalidade de pacientes graves internados em UTIs.
Uma das dificuldades para desenvolver novos antifúngicos é que os fungos são eucariontes, assim como as células humanas, compartilhando vias de sinalização celular. Isso limita a criação de drogas seletivas e aumenta a toxicidade dos medicamentos e as interações com outros fármacos.
Os cientistas defendem uma abordagem integrada de Saúde Única (One Health), que envolve saúde humana, animal e ambiental. O uso indiscriminado de fungicidas na agricultura, na indústria e na medicina veterinária contribui para a resistência a antifúngicos, pois fungos patogênicos encontram seu hábitat natural no ambiente. A exposição a fungicidas com estrutura molecular semelhante aos medicamentos clínicos induz resistência.
“Além dos medicamentos para consumo humano, o uso indiscriminado de fungicidas na agricultura e na medicina veterinária também contribui para a resistência a antifúngicos, o que pode acarretar incremento de mortes por infecções fúngicas não tratáveis e comprometimento da segurança alimentar”, alerta Colombo.
O artigo conclui que a resistência antifúngica permanece negligenciada nas estratégias globais e nacionais. Com a revisão do Plano de Ação Global em Resistência Antimicrobiana em 2026, os pesquisadores pedem a urgente inclusão de ações específicas para mitigar a resistência a antifúngicos, com a abordagem holística de Saúde Única.
Fonte de referência: Agência SP — https://www.agenciasp.sp.gov.br/cientistas-conter-fungos-medicamentos/


