Um levantamento conduzido por cientistas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em colaboração com a Universidade de Birmingham, do Reino Unido, detectou a presença de compostos tóxicos com potencial ligação ao câncer em materiais descartados em diversas regiões do Brasil. O estudo analisou espumas, plásticos e artigos infantis que circulam em locais de desmanche e reciclagem.
Os pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia (ICTS) da Unesp de Sorocaba, no interior paulista, coletaram 207 amostras de quatro categorias principais: resíduos de construção e demolição, veículos em fim de vida útil, estofados e produtos destinados ao público infantil. Os materiais vieram da região metropolitana de Sorocaba, incluindo um centro de desmanche de veículos, um aterro sanitário e associações de reciclagem.
As substâncias identificadas pertencem ao grupo dos retardantes de chama, usados historicamente como plastificantes pela indústria devido à estabilidade térmica e ao baixo custo. Elas podem provocar desregulação no sistema endócrino e reprodutivo, além de favorecer o surgimento de câncer, segundo os pesquisadores.
De acordo com o engenheiro ambiental David Burgos, da Unesp, os resultados acenderam um alerta. «Nossos resultados mostraram que 95% das amostras continham pelo menos um desses compostos em baixas concentrações, sendo que 13 excederam o nível mais preocupante», afirmou o pesquisador.
A contaminação pode ocorrer de diferentes formas: pelo contato direto com o objeto, pela ingestão acidental ou pela inalação de poeira liberada quando o material se degrada no ambiente. Isso significa que móveis antigos, colchões, carcaças de eletrônicos e até brinquedos podem representar risco se forem reciclados sem uma triagem química adequada.
Parte dessas substâncias já foi banida por acordos internacionais, como a Convenção de Estocolmo, da qual o Brasil é signatário desde 2004. Apesar disso, os cientistas apontam que a responsabilidade pela análise química dos compostos antes da reciclagem é difusa entre diversos órgãos ambientais e sanitários.
O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima informou, em nota, que a reciclagem de materiais antigos é permitida até 2030, mas não exige testes específicos para a presença de PBDEs, um dos grupos de compostos encontrados. A pasta não detalhou se há planos de ampliar a exigência de exames laboratoriais.
Os autores defendem que a reciclagem sem análise prévia pode espalhar a contaminação para novos produtos e para o meio ambiente, transformando uma prática sustentável em vetor de risco à saúde pública. Eles sugerem que políticas de economia circular incluam protocolos de rastreamento químico.
O estudo reforça a necessidade de debates sobre a destinação de resíduos que contêm substâncias persistentes. Enquanto isso, consumidores e cooperativas de reciclagem seguem lidando com materiais cuja composição exata nem sempre é conhecida.
Procurados, representantes da Unesp e da Universidade de Birmingham não se manifestaram além do conteúdo já publicado. O espaço permanece aberto para eventuais atualizações.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/estudo-da-unesp-encontra-compostos-ligados-ao-cancer-em-espumas-e-plasticos

