Em uma reunião sigilosa ocorrida em outubro de 2023, o corretor de imóveis Antônio Vinícius Lopes Gritzbach revelou ao Ministério Público de São Paulo (MPSP) os mecanismos utilizados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para lavar dinheiro. O encontro, realizado por videoconferência com promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), ocorreu durante as tratativas de um acordo de delação premiada. Gritzbach foi executado a tiros no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, em novembro de 2024, pouco após formalizar a colaboração.
De acordo com a gravação obtida com exclusividade, o corretor explicou que o dinheiro vivo obtido pelo crime organizado era trocado por transferências bancárias eletrônicas (TEDs), utilizando fintechs e contas de laranjas. O objetivo era dar liquidez aos valores e inseri-los no sistema financeiro com aparência de legalidade, dificultando o rastreamento pela polícia e pelos órgãos de controle.
Gritzbach detalhou que a operação funcionava como uma troca: pessoas com grandes quantias em espécie procuravam intermediários dispostos a fazer a compensação bancária. O dinheiro físico era entregue e, em troca, o valor era depositado por TED na conta do cliente. Esse processo, chamado pelo corretor de “bancarizar” o dinheiro, permitia que os recursos circulassem como se fossem de origem lícita.
O corretor afirmou que os intermediários cobravam uma taxa de 1% a 2,5% do valor movimentado. Em um exemplo hipotético, citou que para R$ 1 milhão em espécie, o custo da operação poderia chegar a R$ 25 mil. Esse percentual era o preço pago para que o dinheiro pudesse ser usado na compra de imóveis, pagamento de contratos ou outras transações sem levantar suspeitas.
Segundo Gritzbach, as fintechs eram especialmente atrativas para o PCC porque ofereciam uma camada adicional de proteção. Essas empresas, embora ligadas a instituições financeiras maiores, operavam com menor rigor na identificação dos clientes, criando uma espécie de “guarda-chuva” para os correntistas. O corretor afirmou que os criminosos conseguiam ser avisados sobre investigações em andamento e bloqueios judiciais, permitindo que retirassem o dinheiro das contas antes que fosse apreendido.
O promotor Lincoln Gakya, do Gaeco, conduziu a oitiva e questionou Gritzbach sobre o funcionamento detalhado do esquema. O corretor também mencionou que policiais corruptos eram coniventes com as operações, mas não deu mais detalhes sobre essa participação. Posteriormente, parte desses policiais foi presa pela Polícia Federal em parceria com o MPSP.
Gritzbach já havia sofrido um atentado a tiros em frente à sua casa no Natal de 2023, antes de fechar o acordo de delação. Ele vinha colaborando com as investigações e apresentando provas em áudio e vídeo ao Gaeco. Sua morte no aeroporto, em plena luz do dia, chocou o estado e levantou suspeitas sobre vazamentos de informações sigilosas.
O caso agora está sob investigação da Polícia Federal e do MPSP, que buscam identificar os mandantes do homicídio e aprofundar as apurações sobre o esquema de lavagem de dinheiro do PCC. As revelações de Gritzbach podem ajudar a desmantelar parte da estrutura financeira da facção, que movimenta bilhões de reais anualmente.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/gritzbach-contou-como-pcc-burla-sistema-financeiro-para-lavar-dinheiro


