O estado de São Paulo registrou no primeiro semestre o maior número de prisões e detenções desde 2020, com mais de 110 mil capturas, sendo dois terços em flagrante. O balanço foi celebrado pelo governo estadual, mas expõe um descompasso: faltam profissionais para acompanhar esses detentos e investigar os crimes.
De acordo com o Raio-X das Forças de Segurança Pública, divulgado nesta terça-feira (4/8) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), a Polícia Penal paulista opera com apenas 71,6% do efetivo previsto. São 24.898 agentes para uma meta de 34.784, um déficit de quase 10 mil vagas.
Na Polícia Civil, a situação é semelhante: 19.420 agentes atuam, enquanto o planejado era 24.332, o que representa 79,8% de ocupação. A carência de investigadores e delegados afeta diretamente a apuração de delitos que migram das ruas para o ambiente digital, como golpes via Pix, WhatsApp e leilões fraudulentos.
O levantamento indica que o poder público tem priorizado o reforço de forças com atuação ostensiva, como a Polícia Militar e as guardas civis. Em São Paulo, a PM tem 87,7% das vagas preenchidas, o menor déficit proporcional do país, com 82.250 policiais para 93.802 previstos. Apenas o Ceará supera a meta, com um chamado 'superávit'.
As guardas civis municipais se consolidaram como a segunda maior força de segurança do estado, com 30.184 integrantes, superando a Polícia Civil em número de agentes. A capital paulista concentra 7.871 guardas, evidenciando o protagonismo crescente das prefeituras em uma área historicamente dominada pelo governo estadual.
O problema não é exclusivo de São Paulo: a média nacional de preenchimento de vagas é de 55,2% para policiais civis e 68,5% para policiais penais. A falta de efetivo é um gargalo que afeta a segurança pública em quase todos os estados, segundo o FBSP.
Sindicatos e associações de classe apontam as consequências práticas do déficit. A Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp) afirma que a redução contínua do efetivo compromete a capacidade operacional, sobrecarrega os profissionais e enfraquece a investigação criminal.
A reposição insuficiente de servidores, somada a aposentadorias e à evasão de policiais para outras carreiras e estados, tem ampliado as dificuldades, destaca a Adpesp. A entidade também menciona a remuneração menos competitiva como fator de perda de talentos.
Especialistas ouvidos pelo Metrópoles reforçam que o investimento em tecnologia e inteligência é essencial, mas não substitui o contingente humano. A segurança pública exige planejamento de longo prazo e valorização das carreiras, alertam.
O governo estadual ainda não se manifestou sobre os dados do raio-x. A expectativa é que o tema seja debatido em audiências públicas e na Assembleia Legislativa, diante da pressão por concursos e melhores condições de trabalho.
Enquanto isso, a população sente os efeitos da falta de policiais na resolução de crimes e na superlotação dos presídios, onde o efetivo penal insuficiente dificulta a gestão e a segurança das unidades.
A situação exige medidas urgentes das autoridades para reverter o quadro e garantir que o aumento das prisões não se transforme em um problema ainda maior para o sistema prisional e para a sociedade paulista.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/deficit-de-policiais-civis-e-penais-expoe-lacunas-da-seguranca-em-sp

