Um laudo preliminar realizado no Brasil apontou que a causa da morte do brasileiro Lucas Nascimento de Medeiros, de 33 anos, foi asfixia não mecânica. A informação foi divulgada pelo irmão dele, Marcos, que teve acesso ao exame. O corpo chegou ao país no último sábado (17), cinco dias após a confirmação do óbito pelo Consulado Brasileiro em Istambul.
Segundo o relato de Marcos, um profissional do Instituto Médico Legal (IML) explicou que a ausência de marcas no pescoço descarta a hipótese de enforcamento. Esse tipo de asfixia costuma ocorrer quando a pessoa é sufocada ou colocada dentro de um saco, o que sugere um cenário de tortura, afirmou o irmão. O corpo foi liberado para os procedimentos funerários na manhã desta segunda-feira (19).
Lucas, que era empresário e programador, foi detido em um centro migratório na Turquia. De acordo com familiares, ele enviou a localização do Centro de Remoção de Harmandalı, em Esmirna, à mãe entre os dias 5 e 6 de outubro. A unidade fica a cerca de 500 quilômetros de Istambul. Depois desse contato, a família deixou de receber respostas às mensagens enviadas.
As autoridades turcas apresentaram versões diferentes sobre o caso. Inicialmente, o consulado brasileiro informou à família que um corpo havia sido encontrado em um hotel junto ao passaporte de Lucas. A família contestou, pois a última localização enviada por ele indicava o centro migratório. Diante do questionamento, a consulesa teria confirmado que a morte ocorreu na unidade de detenção.
Em seguida, conforme Marcos, as autoridades turcas alegaram que Lucas teria tirado a própria vida por enforcamento. A versão não se sustenta diante dos vestígios identificados pelo IML em São Paulo, disse o irmão. O laudo preliminar aponta asfixia não mecânica, sem as marcas típicas de enforcamento.
«[O funcionário do IML] me explicou que, se fosse [asfixia] mecânica, ele teria a marca da fricção mecânica em toda a parte do pescoço. Até interna, dessa força que foi exercida para tirar a vida. E não foi o caso», relatou Marcos. «Então, ele foi torturado e morto lá», concluiu.
O Metrópoles teve acesso ao relato de Marcos, que contesta a versão oficial das autoridades turcas sobre o falecimento no centro de detenção. A reportagem procurou o Itamaraty e o consulado para obter posicionamento sobre as novas informações, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Jornais turcos de oposição ao governo de Recep Tayyip Erdoğan têm denunciado abusos contra imigrantes no Centro de Remoção de Harmandalı. Em 2021, o jornal Artı Gerçek noticiou a morte de um refugiado sírio de 21 anos em um incêndio no quinto andar da unidade. A publicação afirmou que o local acumula denúncias de maus-tratos.
A família de Lucas aguarda a conclusão do laudo definitivo para esclarecer as circunstâncias da morte. O caso reacende discussões sobre as condições de detenção de estrangeiros em centros migratórios turcos e a necessidade de acompanhamento consular adequado.
Fonte de referência: metropoles.com — https://metropoles.com/sao-paulo/causa-morte-brasileiro-turquia

