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São Paulo

Aluna de 4 anos desenhou orixá por associá-lo a princesa, diz professora em depoimento

Professora afirma que criança escolheu livremente desenhar Iansã após leitura de livro sobre cultura afro-brasileira. Pai policial chamou a PM e foi indiciado por intolerância religiosa.

Material cedido ao Metrópoles

Raphael Nogueira Felix
28 de junho de 202605:28
Atualizado agora há pouco às 08:28

Uma professora da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Antônio Bento, na zona sul de São Paulo, prestou depoimento à Polícia Civil sobre o episódio em que um policial militar armado foi chamado à unidade após o pai de uma aluna se incomodar com um desenho feito pela filha. Segundo a educadora, a criança de 4 anos escolheu voluntariamente desenhar a orixá Iansã, personagem do livro Ciranda em Aruanda, por associá-la a uma princesa e gostar do vestido que ela usava na ilustração.

O caso ocorreu em novembro de 2025, mas ganhou repercussão após ser revelado pelo Metrópoles. O pai da menina, que é policial, acionou o 190 ao ver o desenho exposto em um mural da escola. Ele acusou a instituição de promover conteúdo religioso sem autorização. A ocorrência foi registrada e gerou debate sobre intolerância religiosa e liberdade de ensino.

De acordo com o depoimento da professora, a atividade não era obrigatória. Após a leitura do livro, os alunos puderam manusear a obra e escolher livremente se queriam desenhar ou não. A filha do policial optou por fazer o desenho de Iansã, enquanto outras crianças preferiram brincar com massa de modelar ou andar de bicicleta. A educadora afirmou que a menina relacionou a orixá a uma princesa protetora da natureza.

O desenho ficou exposto no mural da escola por dois meses, até que o pai o viu e o arrancou. Ele então chamou a Polícia Militar, que enviou uma viatura ao local. Um dos policiais que atendeu a ocorrência afirmou que a diretora da escola tentou “ditar sua ideologia” ao defender a tarefa. O caso foi registrado e encaminhado à Polícia Civil.

A investigação concluiu que não houve crime por parte da escola ou da professora. O pai da aluna foi indiciado por intolerância religiosa, com base na Lei 7.716/1989, que pune crimes de preconceito. O delegado responsável afirmou que não foi identificada “prática de conduta penal relevante” entre os demais envolvidos. O Tribunal de Justiça Militar ainda analisa se a ação dos policiais foi regular.

No depoimento, a professora destacou que a atividade seguiu as diretrizes das leis federais 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena nas escolas. Ela também mencionou que o conteúdo foi apresentado às famílias em agosto de 2025, durante reunião de pais, e que a mãe da aluna não se opôs ao projeto pedagógico na ocasião.

A educadora, que se declarou católica e disse nunca ter frequentado um terreiro de Umbanda, afirmou que não se sente preparada para ensinar religiões, mas que a atividade tinha caráter cultural e lúdico. Ela também relatou que, após o episódio com a presença de policiais armados, as crianças da Emei passaram a demonstrar medo ao encontrar agentes de segurança, perguntando se são “policiais do bem ou do mal”.

O caso reacendeu o debate sobre a laicidade do Estado e a liberdade de cátedra nas escolas. Especialistas em educação apontam que o ensino de matrizes africanas é previsto em lei e não configura doutrinação religiosa, mas sim reconhecimento da diversidade cultural brasileira. A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Educação, informou que apoia a prática pedagógica da escola e repudia qualquer ato de intolerância.

O pai da aluna não se manifestou publicamente após o indiciamento. O advogado dele afirmou que recorrerá da decisão. O caso segue sob análise da Justiça, que deverá decidir sobre a responsabilidade do policial militar que atendeu à ocorrência.

Fonte de referência: www.metropoles.com — https://www.metropoles.com/sao-paulo/pm-armada-em-escola-crianca-escolheu-desenhar-orixa-diz-professora

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